NOTICIAS21/09/2026

Sintrajud presta homenagem a Amelinha: legado de luta vai continuar

Quando esteve na sede Sintrajud, em meados de julho, Amelinha Teles se disse encantada com a proposta do projeto que busca preservar e estabelecer um espaço dedicado às lutas sindicais da categoria. Prontamente, se dispôs a ajudar a resgatar e contar a história do sindicalismo, dos direitos humanos e das lutas sociais.
Por: Hélcio Duarte Filho
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Embora natural, a menção ficou gravada na mente de quem ali estava. Afinal, a militante de 81 anos de idade demonstrava uma disposição sem fim para defender as causas sociais e da classe trabalhadora. Ela que construira a sua vida semeando ideias igualitárias e defendendo o resgate da verdade e da memória de um país que, após 21 anos de ditadura empresarial-militar, foi forçado a fingir que nada aconteceu, sabia como ninguém a importância de resgatar e preservar os lados bons e ruins da história.

Na terça-feira, 15 de setembro de 2026, Amelinha se foi. Deixou como legado uma história e uma construção que, segundo unânimes depoimentos, não tem como ser dissociada justamente dessa luta pela verdade, memória e justiça, sempre imbricada à defesa dos direitos humanos. Tampouco da causa das mulheres, invariavelmente ligada à luta classista: afinal, dizia, há inegáveis e evidentes diferenças entre quem é explorada e quem explora, e essas diferenças se acentuam no caso das mulheres e pessoas negras.

Tudo isso foi lembrado em depoimentos à reportagem do Sintrajud. Também permeou a homenagem prestada a ela durante o ato-assembleia da categoria, na quinta-feira (17), dia das cerimônias fúnebres de despedida de Amelinha. “Nos entristece, mas a gente precisa render homenagens. Amelinha Teles foi uma militante que combateu o regime militar no nosso país, a ditadura, e que sofreu graves consequências, como tantos outros que lutaram”, disse a servidora Ana Luiza Figueiredo Gomes, ex-dirigente do Sintrajud e integrante do Núcleo dos Aposentados e Aposentadas do Sindicato.

A servidora lembrou, sem conter a emoção, que Amelinha foi presa e violentamente torturada em 1972. Não só ela, como os seus dois filhos, de quatro e cinco anos de idade então, sequestrados e levados à masmorra para assistir Amelinha e César Augusto Teles, sendo torturados pelo regime que segue sendo defendido pela extrema direita e pelo bolsonarismo.

“Nós lutamos muito para derrubar a ditadura. E nesse momento, onde os militares e seus representantes bolsonaristas e outros tantos querem colocar um novo regime militar em nosso país, é muito importante que a gente renda homenagens à Amelinha e a todos que lutaram contra esse regime”, prosseguiu Ana Luiza. “Ela foi uma guerreira, seguiu lutando, não retrocedeu. Levou a luta a todos os cantos em que esteve, em todos os momentos".

Ana Luiza lembrou que o torturador de Amelinha, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (1931-2015), foi julgado e condenado em 2008 como torturador em uma ação movida pela família Teles. Foi a primeira condenação do gênero no país. Em 2016, ao votar no impeachment da presidenta Dilma Rousseff, o então deputado Jair Bolsonaro prestou homenagens ao torturador. 

Parcerias com o Sindicato

A relação de Amelinha Teles com o Sintrajud era próxima. Reconhecida militante das lutas feministas, ela por algumas vezes participou de seminários e debates promovidos pelo Coletivo de Mulheres do Sintrajud – Mara Helena dos Reis.

A sua presença era sempre motivo de confiança de que vale a pena lutar e perseverar. Faz poucas semanas, o Sintrajud recebeu algumas das aulas da 30ª Turma do curso de Promotoras Legais Populares, projeto desenvolvido na capital paulista pela União das Mulheres de São Paulo, à qual Amelinha se dedicava com afinco. Há 20 anos o projeto forma mulheres em noções de direitos humanos e e acesso à justiça, construindo uma rede de voluntárias que auxiliam vizinhas vítimas de violência doméstica.

Foi numa dessas aulas que Amelinha se deparou com o projeto Memória Sintrajud e disse que estava à disposição também dessa empreitada. “Ela esteve presente em várias dessas aulas e, para nós, era sempre uma emoção poder ouvi-la atentamente, com a sua experiência, a sua memória e a sua força política”, recorda Juliana Silva, funcionária do Sintrajud e uma das alunas do curso.

A 30ª Turma das PLPs, como é conhecida, foi batizada com o nome de Amelinha Teles, uma forma de homenageá-la em vida, quando já enfrentava um câncer que a atingiu de modo fulminante. “Como aluna desta turma, foi uma grande alegria e uma emoção especial dividir as manhãs de sábado com o curso e, sempre que conseguia estar presente, ouvir Amelinha em suas intervenções”, reforça Juliana. “Hoje, Amelinha se torna uma grande estrela, mas a sua luta permanece viva. Nas PLPs, seguiremos sendo sementes desse projeto que ela ajudou a construir e que dedicou parte de sua vida a fortalecer como instrumento de emancipação, organização e transformação social”, observa.

‘Exemplo para as lutadoras’

A tristeza da perda é grande, diz a servidora do TRT-2 Helena Pontes. “Amelinha é um exemplo para todas as pessoas que são lutadoras sociais. Ela foi presa, foi torturada, viu os próprios filhos sendo levados para vê-la sofrer, quer dizer, viu os próprios filhos sendo torturados. E mesmo assim ela dedicou a vida inteira a uma busca coletiva não só por justiça, mas por um mundo melhor, por um mundo que valesse a pena todo mundo viver, todas, todos, todes”, diz. 

Ela ressalta que Amelinha é uma referência de primeira grandeza não só do socialismo, como do feminismo classista e popular brasileiro. Recorda que na Assembleia Constituinte de 1988 cumpriu destacado papel na defesa da inserção no texto máximo da legislação brasileira da previsão de que homens e mulheres são iguais em direitos e deveres. 

Helena Pontes assinala ainda a importância do já mencionado projeto das promotoras populares. “Se a gente for falar de direito, de justiça, de feminismo popular, da luta das mulheres por direitos, em tudo o que a gente conseguiu avançar, necessariamente temos que falar do trabalho desenvolvido pela Amelinha Teles. Ela nos ensinou que resistir é uma coisa que a gente faz necessariamente em coletivo”, afirma. 

Referência

Companheira de militância de Amelinha nos últimos dez anos, a jornalista do Sintrajud Luciana Araujo diz que ela ressignificou as atrocidades que sofreu do Estado brasileiro e as transformou em ferramenta para convencer milhares de mulheres, em risco de feminicídio, de que é possível superar a dor das violências e lutar por viver plenamente.

“A gente não aceita a perda, mas ela viveu muito plenamente tudo que ela defendeu. Não tinha um milímetro de afastamento do que defendia e do que fazia, característica cada vez mais rada. E foi de uma força tão incrível, inclusive nesse duro período final, que foi, é e vai ser sempre um exemplo para as milhares de ativistas que formou, as gerações para quem foi referência”, diz Luciana, com a certeza de que *seu legado seguirá vivo nas lutas".

Certeza compartilhada nos demais depoimentos colhidos para essa reportagem-homenagem do Sintrajud a Amelinha. “A sua história não termina aqui. Ela segue viva em cada mulher que se organiza, em cada luta por direitos, em cada espaço de memória e em cada semente que continua sendo plantada”, resume Juliana, expressando, em palavras, um sentimento que envolveu muitas outras mulheres.

ERRATA: A data correta da condenação de Ustra foi 2008. Em 2012 ocorreu a negativa de recurso impetrado pelo criminoso.