NOTICIAS30/07/2026

Servidora do TRT-2 fala à mídia sobre o mês da mulher negra latino-americana e caribenha e de Tereza de Benguela

Jornada de atividades antirracistas que teve início no dia 22 de julho e vai até 08 de agosto em diversas cidades da Baixada Santista; Helena Pontes concedeu entrevista ao 'Jornal da Orla', reproduzida pelo Sintrajud.
Por: Redação, republicando o
Ouça a matéria

Criada para aproximar a universidade dos movimentos sociais, a VI Semana Tereza de Benguela reúne debates, atividades culturais e ações comunitárias em diferentes cidades da Baixada Santista. A programação segue até 8 de agosto com oficinas, rodas de conversa, apresentações, exibições audiovisuais e discussões sobre democracia, justiça racial e bem viver em Guarujá, Mongaguá, Cubatão, Peruíbe e Santos. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas pelo Instagram @semanaterezadebenguela.bs.

Organizada pelo Núcleo da Semana Tereza de Benguela da Baixada Santista, formado por coletivos, movimentos sociais, organizações populares e grupos de pesquisa da USP e da Unifesp, a iniciativa busca fortalecer a atuação de mulheres negras e ampliar o diálogo entre a produção acadêmica e as comunidades.

Segundo a pesquisadora Helena Pontes dos Santos, a Semana nasceu da vivência de estudantes e pesquisadoras negras dentro da universidade. “O projeto surgiu do incômodo com o racismo institucional nas universidades e da falta de um espaço coletivo para nos aquilombarmos. Também percebíamos que os movimentos sociais eram usados como objeto de pesquisa, mas sem diálogo e sem devolutiva para quem constrói esses saberes”, afirma.

Desde a primeira edição, a proposta é colocar lado a lado o conhecimento produzido na universidade e os saberes construídos pelos movimentos sociais. “Queremos colocar esses saberes em pé de igualdade. É desse encontro que surgem soluções para os problemas concretos da sociedade”.

Democracia e bem viver

Neste ano, o tema é “Aquilombar o Futuro: Mulheres Negras Construindo Democracia, Justiça e Bem Viver”. Para Helena, a escolha reflete discussões atuais sobre reparação histórica, democracia e qualidade de vida. “Estamos cansados de apenas sobreviver. Queremos bem viver, queremos desfrutar da vida. Esse tema conversa com diversas lutas, como o debate sobre a escala 6×1, a inclusão da história afro-indígena nas escolas e o enfrentamento à violência contra as mulheres”.

Entre os assuntos em destaque está a permanência de estudantes negros nas universidades. Para a pesquisadora, garantir o acesso ao ensino superior não é suficiente. “O estudante negro enfrenta o racismo cotidiano, dificuldades econômicas e currículos que ainda ignoram autores negros ou reproduzem perspectivas racistas. A universidade precisa entender que acessibilidade também passa por essas questões”.

Ela também defende uma universidade mais conectada com a realidade da população. “O conhecimento não pode ser produzido apenas para ficar dentro da academia. Ele precisa dialogar com a comunidade, melhorar os territórios e responder às necessidades da classe trabalhadora”.

Outro ponto destacado por Helena é a importância de ampliar as referências para que mais mulheres negras ocupem espaços de pesquisa e liderança. Ela cita o legado da escritora e ativista Alzira Rufino como inspiração para novas gerações. “Quando começamos a ocupar esses espaços e produzir para o coletivo, fortalecemos toda a comunidade. As pequenas ações de hoje podem abrir caminho para que outras pessoas também se enxerguem na universidade e nos espaços de liderança”.

Palestras e debates

Ao longo da programação, pesquisadores, lideranças comunitárias e representantes de movimentos sociais participam de encontros voltados ao combate ao racismo, ao machismo e às desigualdades. “A informação precisa circular. Quem participa da Semana também assume o compromisso de compartilhar esse conhecimento. É assim que fortalecemos nossas comunidades”.

Maria da penha e encerramento

O encerramento será no dia 8 de agosto, a partir das 14h, na Quadra da Escola de Samba Unidos da Zona Noroeste, em Santos, com oficinas, rodas de conversa, orientação jurídica, atendimento social e debates sobre o enfrentamento à violência doméstica.

A programação também marca os 20 anos da Lei Maria da Penha e discute o aumento da violência contra mulheres negras. “Não basta falar apenas sobre gênero. A mulher negra também enfrenta o racismo e a desigualdade de classe. Precisamos envolver os homens nesse debate. Uma sociedade sem violência contra a mulher passa por homens responsabilizando seus pares”.

Para Helena, a Semana vai além da formação política. “A luta por justiça social, democracia e bem viver é a única possibilidade de construirmos um futuro melhor. Sem esses valores como objetivo coletivo, não há futuro”.

* Texto originalmente publicado no 'Jornal da Orla', acesse clicando aqui