NOTICIAS14/03/2026

Impactos da inteligência artificial na reestruturação do PJU e no trabalho são tema do 10º Congresso

Saúde mental, estabilidade, dados pessoais e relações de trabalho estão ameaçados por uma tecnologia que deveria beneficiar os trabalhadores e contribuir para a redução das jornadas laborais, mas é usada para potencializar a exploração e o desinvestimento nos serviços públicos.
Por: Luciana Araujo
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Na parte da manhã deste dia 14 de março as 117 pessoas credenciadas como delegados/as puderam participar de um debate no Congresso do Sintrajud que analisou como a inteligência artificial vem transformando as relações de trabalho e impactando as vidas de servidores e servidoras.

 

Apresentaram estudos sobre o tema o pesquisador do Instituto Latino-americano de Estudos Socioeconômicos - ILAESE e cientista da computação Gustavo Machado; o coordenador do Laboratório de Trabalho, Plataformização e Saúde da UEM, Matheus Viana Braz; e Fabiano dos Santos, servidor da área de tecnologia da informação do TRT-2 e membro da Secretaria Executiva Nacional da CSP-Conlutas.

 

Este foi o último painel do Congresso. Na parte da tarde delegadas e delegados debateram e apresentaram propostas sobre todo o temário nos grupos de trabalho.

 

Neste domingo (15) serão decididas as propostas que vão virar resoluções orientadoras da ação da diretoria executiva nos próximos três anos.

 

Funcionalismo: setor mais impactado pela IA

 

Gustavo destacou que o problema não são as ferramentas de inteligência artificial, mas como “ao invés de ser usada para melhorar a nossa vida, para reduzir a jornada de trabalho, para tornar o trabalho menos intenso, menos massacrante, a tecnologia nessa sociedade que a gente vive é usada contra nós, para reduzir o número de postos de trabalho, para aumentar a repetição e a intensidade de quem continua trabalhando.”

 

O pesquisador também destacou a importância do funcionalismo conhecer e discutir cotidianamente e de forma organizada como essas ferramentas e tecnologias estão alterando as dinâmicas de trabalho e contratações.

 

Estudo realizado pelo Ilaese com base nos dados da Rais (Relação Anual de Informações Sociais do Ministério do Trabalho) e divulgado neste mês aponta que 60% dos servidores públicos serão parcialmente impactados e 24% serão muito impactados. Apenas 15% vão ser pouco impactados. “É, de longe, o setor da sociedade brasileira, da classe trabalhadora brasileira, mais impactado pela inteligência artificial”, afirmou o palestrante.

 

Gustavo também frisou que esses impactos estão diretamente relacionados a um projeto de Estado que levou a que as despesas da União com pessoal caíssem de 54,5% em relação à receita corrente líquida em 1995 para 25% em 2024. Processo que se agudizou após a Emenda Constitucional 19/1998 (a reforma administrativa do governo Fernando Henrique Cardoso, capitaneada pelo ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira). Entre 2002 e 2023 o funcionalismo federal encolheu 46,20%, de acordo com o estudo do Ilaese (confira aqui).

 

Relações de trabalho, saúde mental e justiça de dados

 

Matheus destacou que desde 2023 têm sido realizadas pesquisas analisando o aspecto da produtividade em diversos setores econômicos. “Não existe hoje uma discussão pacificada de que inteligência artificial significa mais aumento de produtividade do trabalho. Em alguns setores sim, em outros, menos, mas é uma discussão extremamente complexa”, afirmou. “Raramente há um aumento em termos de massa salarial e incremento de salários. O que a gente vai ver é uma intensificação da pressão”, concluiu.

 

Outro tema trazido pelo palestrante para reflexão é que o argumento da automação vem sendo usado como panaceia para invisibilizar o trabalho humano necessário para o desenvolvimento das ferramentas de automação. “Não existe geração de valor no capitalismo sem força de trabalho humano”.

 

O pesquisador frisou também que, sem uma reflexão coletiva das categorias, essas ferramentas de automação tendem a aumentar a distância entre a força de trabalho qualificada e a que exige, em tese, menos qualificação, cindindo a classe e mesmo categorias. “Agora o que a gente vai ver, de fato, é que as tarefas administrativas de gestão burocrática são as mais suscetíveis ao que vai se chamar de deslocamento, e a literatura sobre esses deslocamentos aponta que eles tendem a aumentar a distância entre a força de trabalho qualificada e pouco qualificada”, apontou.

 

A categoria de servidores do Poder Judiciário da União, que vivencia um debate que tende a fragmentar os segmentos, precisa se atentar para este viés da automatização e aceleração do trabalho embalada no lema “fazer mais com menos”. Discursos que colocam técnicos contra analistas e vice-versa, defesa do isolamento de oficiais de justiça num sindicato separado dos demais servidores da carreira, separação das áreas meio e fim tendem a prejudicar toda a categoria enfraquecendo a possibilidade de conquistas e manutenção dos direitos adquiridos com a luta. Até porque o PJU já vem implementando medidas de reestruturação que não na direção de superexplorar e enxugar quadro funcionais.

 

As consequências dessa dinâmica para a saúde mental são outro tema a ser enfrentado. A entrada da Síndrome de Burnout no Código Internacional de Doenças (CID), em 2025, alerta para a necessidade de incorporar à luta sindical a preservação de trabalhadores e trabalhadoras do quadro de estafa extrema. E já há estudos que apontam o impacto do tecnoestresse, que pode ser associado ao burnout.

 

“O tecnoestresse é uma forma de ansiedade, fadiga específica, derivada do uso intensivo de tecnologias de informação e comunicação. É um termo que existe há menos de dez anos. Há um processo de intensificação cognitiva, de aumento de carga mental no trabalho. Qual é a relação disso com o burnout. Qual a minha relação com o tempo se eu preciso ser cada vez mais produtivo, rentabilizar meu tempo etc? Em que momento você tem conseguido parar, se desconectar?”, apontou Matheus, que é psicólogo e professor da UEM.

 

O especialista concluiu sua fala apontando que a justiça de dados e a transparência algorítmica precisam entrar na pauta sindical, para cobrar como as instituições vêm tratando os dados que as ferramentas de IA capturam.

 

IA, reforma administrativa e o trabalho no PJU

 

Fabiano ressaltou como as ferramentas da IA são aproveitadas pelas instituições públicas como elemento potencializador da precarização. “Essa agenda de reforma administrativa tem a intenção de acabar com a jornada de trabalho no serviço público e a transformação de todo o trabalho mensurado para um sistema de metas”, informou, apontando que esse objetivo foi explicitado pelo governo federal, por meio do Ministério da Gestão e Inovação (MGI) em reuniões da Mesa Nacional de Negociação Permanente.

 

“E o que significa acabar com a jornada de trabalho? Não é para trazer um favorecimento para o trabalhador, porque se a sua intenção é trazer um favorecimento para o trabalhador, você vai discutir a redução da jornada. Quando você fala em acabar com a jornada de trabalho, o que você está propondo, concretamente, é abolir os limites impostos pela jornada e trazer esse modelo de exploração máxima para os serviços públicos”, complementou o dirigente.

 

“A gente precisa compreender essas transformações e entender que enquanto nós estamos discutindo reestruturação de carreiras, um projeto existe lá do outro lado. E aí existe um risco muito grande em a gente ficar aguardando a proposta que vai funcionar. Se nós não defendermos a nossa proposta, se a gente se coloca nesse compasso de espera, tenho absoluta certeza que o projeto que vem do lado de lá vai olhar as nossas carreiras sob essa perspectiva. Vai tentar trazer a lógica da gratificação por desempenho, que por um momento parece ser interessante, mas naturaliza a lógica das metas e vai preparar o terreno para todas essas transformações”.

 

Por todo o debate apresentado pelos painelistas, Fabiano encerrou sua apresentação ressaltando a importância da unidade das categorias e do conjunto da classe trabalhadora para enfrentar essa realidade. “Precisamos avançar, recuperar o espaço que nós perdemos, com o conjunto da classe, para enfrentar essa exploração desenfreada.”

 

Assista no player abaixo as palestras: