NOTICIAS13/03/2026

Debate sobre opressões no 10º Congresso reforça perspectiva indivisível de classe, raça e gênero

Situação das mulheres, população negra, LGBTQIAPN+ e pessoas com deficiência esteve no centro do debate congressual com plenário cheio e muito respeito.
Por: Luciana Araujo
Da esq. à direita: Helena, Mayra, Luciana Carneiro, Rosana Nanartonis, Claudia e Thiago Claudio Cammarota
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Com plenário cheio, o que foi destacado por palestrantes, delegadas e coordenadoras do Coletivo de Mulheres Mara Helena dos Reis, o painel “Opressões e assédio a serviço da exploração capitalista” demarcou fortemente como as condições de vida dos grupos sociais que por muito tempo foram classificados pela heteronormatividade hegêmonica como "minorias" são acionadas como mecanismo de superexploração e gestão populacional por meio da necropolítica (aquela que determina quem são os corpos descartáveis e cuja morte é parte do sistema de reproducação de valor). A discussão foi coordenada pela diretora do Sindicato Rosana Nanartonis e a dirigente da Federação Nacional da categoria eleita pelo Coletivo Luta Fenajufe Luciana Carneiro.

O debate teve participação da professora titular do curso de Serviço Social da Unifesp Cláudia Mazzei Nogueira; da ativista contra o capacitismo e mestranda no programa  Mudança Social e Participação Política na USP-Each Mayra Oliveira; da servidora do TRT-2 Helena Pontes, integrante do Grupo de Pesquisa Trabalho e Capital da Faculdade de Direito da USP; e de Thiago William Bastos, mestrando em Direito do Trabalho na USP e coordenador do Eixo de Pesquisa Trabalhadores LGBTQIAPN+ do Núcleo de Pesquisa e Extensão da USP "O trabalho além do direito do trabalho".

Emancipação feminina e da humanidade

Cláudia Mazzei Nogueira, professora titular da Faculdade de Serviço Social da Unifesp, falou sobre ‘Trabalho Feminino, Classe, Raça, Etnia e LGBTQIAPN+’ e como “a crescente inserção feminina no mundo do trabalho no capitalismo contemporâneo não favorece nem fortalece o complexo processo de emancipação feminina. Ao contrário, vem acarretando uma expoliação/exploração diferenciada da força de trabalho, afetando de maneira mais intensa a mulher trabalhadora e, mais ainda, se essa mulher for negra, indígena, imigrante ou LGBTQIAPN+”.

“Não basta conquistarmos novos espaços no mundo produtivo. Não basta termos uma nova divisão sociossexual do trabalho assalariado, ocupando, inclusive, postos de trabalho que anteriormente eram reservados aos homens. Se a gente também não conquistar uma nova divisão sociossexual do trabalho na esfera doméstica, estaremos intensificando ainda mais a exploração/opressão da força de trabalho feminina”, enfatizou

“O capitalismo, ao mesmo tempo em que cria aparentemente condições para permitir a emancipação feminina, acentua sua exploração ao estabelecer uma relação aparentemente harmônica entre precarização e mulher, criando formas diferenciadas de extração do trabalho excedente”, disse. “Mas não podemos esmorecer e muito menos abaixarmos as nossas bandeiras de luta. Ou seja, o tema de emancipação feminina deve estar sempre vinculado ao processo histórico da emancipação geral da humanidade”, completou.

A categoria analítica da encruzilhada

A servidora do TRT-2 Helena Pontes começou sua fala saudando a inclusão do tema das opressões na agenda geral do congresso. “Considero muito importante que um congresso sindical abra espaço para debater opressões e assédio no mundo do trabalho, porque essa escolha, por si só, já é uma tomada de posição política que rompe com uma tradição ainda muito presente em parte do movimento sindical e do pensamento jurídico, de tratar essas questões como periféricas, secundárias, laterais, como se fossem problemas de comportamento individual, de educação pessoal, de civilidade ou, no máximo, de gestão institucional.”

“As opressões e o assédio no trabalho não são um desvio externo ao capitalismo, nem uma deformação acidental da organização do trabalho. Eles cumprem função na forma como o capitalismo organiza, disciplina e hierarquiza a força de trabalho”, enfatizou, apontando como as diferenças de raça, sexo e gênero, território, idade, assim como a história colonial do país impacta de forma potencializada a parcela da classe trabalhadora feminina e negra.

“A escravização foi uma das bases da formação do capitalismo brasileiro e o pós-abolição não significou incorporação plena da população negra à cidadania, mas reorganização da exclusão e da superexploração em novas bases”, realçou Helena. Por essas razões, a pesquisadora traz da ética e da filosofia das religiões de matriz africana a categoria analítica da encruzilhada. “Proponho o uso da metodologia da encruzilhada como ferramenta de leitura do mundo do trabalho”. A encruzilhada é o ponto de junção de caminhos distintos e a escolha de por onde seguir apontam para perspectivas novas, dado que escolher é sempre deixar de escolher as outras opções, podendo ser utilizada em analogia à escolha de não fragmentar a leitura da realidade e das análises sobre a classe trabalhadora, que tem gênero, raça, identidade de gênero e orientação sexual. E todas essas condições resultam em percursos diversos de experimentação dos mecanismos de opressão que alimentam a reprodução do capital.

Acessibilidade não é só mudança arquitetônica

A consultora de audiodescrição, acessibilidade e diversidade, assessora da deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL/SP) e ativista anticapacitismo Mayra Oliveira realçou que “a tarefa principal é se somar à luta dos movimentos de pessoas com deficiência, falando sobre o anticapacitismo. Porque quando falamos de acessibilidade, as pessoas pensam apenas em acessibilidade arquitetônica, corrimão, rampa.”

Mayra também ressaltou a necessidade de compreensão de que a deficiência não é uma pauta identitária, mas se intersecciona com as outras opressões.

“Pessoas negras com deficiência não têm dinheiro nem para pagar o passe de ônibus. Um dado importantíssimo do Instituto Vidas Negras com Deficiência Importam é que 80% das pessoas pretas com deficiência hoje não têm condições mínimas para sair das suas próprias casas”.

Divisão transexual do trabalho

O pesquisador Thiago William Pereira Barcelos dedicou boa parte da sua fala a explicar como mesmo um segmento populacional – caso da população LGBTQIAPN+ – vivencia situações diversas de opressão.

“Quando temos corpos dissidentes dentro de ambientes de trabalho que são dominados pela cis-heteronormatividade enfrentam o assédio moral organizacional, perseguição, dificuldade inclusive de usar o banheiro. E quando não estão nesse ambiente de trabalho são marginalizadas para atividades informais, como o ramo da beleza ou a atividade sexual compulsória”, denunciou.

A divisão transexual do trabalho traz a amostra de que as identidades de gênero também estruturam as desigualdades e a opressão, frisou. “Isso resulta em marginalização desses corpos e assédio institucional”, disse. “Existe um ciclo de exclusão social e econômica infinito, que muitas vezes começa em casa, com famílias que expulsam de casa”, completou.

Ao final do debate, o servidor do TRE-SP Donizete Rodrigues apresentou ao plenário uma canção que compôs em homenagem à filha transexual. Confira abaixo:

O ESPELHO ME CHAMOU PELO NOME (HELENA)

Doni Rodrigues & IA (15/02/2026)

Cresci ouvindo histórias de um roteiro traçado
Vestindo o figurino de um papel que foi herdado
O mundo me apontava um caminho em linha reta
Mas dentro do meu peito, a bússola estava incerta.

​(Pré-Refrão)
Ensaiei os gestos, a voz e o caminhar
Mas era um estrangeiro que eu via no olhar
Até que o silêncio gritou a verdade
E a alma exigiu sua própria identidade.

​(Refrão)
Eu vim "ele", mas me descobri "ela"
Abri a janela e pintei a aquarela
Não foi só uma mudança, foi um renascer
Deixando o que impuseram pra ser quem eu devia ser.
Eu vim "ele", mas me descobri "ela"
A vida é o palco, e agora eu sou dona "dela".

​(Verso 2)
Não foi erro do tempo, nem pressa do destino
Foi o desabrochar de um segredo cristalino
Troquei as armaduras por tecidos de coragem
E vi que o meu destino não era só a passagem.

​(Ponte)
Dói soltar as amarras, o medo do julgamento
Mas nada é mais pesado que viver no fingimento
Hoje o espelho sorri, reconhece o meu rosto
A liberdade tem o meu melhor gosto.

​(Refrão Final)
Eu vim "ele", mas me descobri "ela"
Abri a janela e pintei a aquarela
Não foi só uma mudança, foi um renascer
Deixando o que impuseram pra ser quem eu devia ser.
Eu vim "ele", mas me descobri "ela"
A vida é o palco... e eu nunca estive tão bela.
​(Outro)
Me descobri...
Finalmente me vi.
(Ela...)