NOTICIAS26/02/2026

“Essa vitória serve como exemplo. Sabemos que outras lutas virão”

Confira a entrevista com o Cacique Gilson Tupinambá, um das principais liderança indígenas do baixo Tapajós que esteva à frente da ocupação do Terminal Portuário da Cargil.
Por: Jeferson Choma
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No dia 21 de janeiro vocês ficaram sabendo da concessão da hidrovia do Tapajós por meio do decreto. Como começou essa mobilização?

Gilson: No dia 21 ficamos sabendo da existência do decreto que tratava da concessão da hidrovia do Tapajós. Isso nos causou muita indignação, porque durante a COP30 houve uma reunião em que o governo se comprometeu publicamente a rever essa situação. Nós acreditamos nessa promessa, mas depois percebemos que fomos enganados Quando surgiu o edital para a dragagem do Tapajós, percebemos que o decreto já estava sendo colocado em prática. Aquilo foi a gota d’água para nós. Já havia muita insatisfação nas comunidades, e decidimos que não podíamos mais esperar”, Explica o Cacique Gilson Tupinambá, uma das principais lideranças da ocupação. 

Viemos para Santarém com essa preocupação. Chegamos sem estrutura, sem alimento, sem nada, mas com a certeza de que queríamos a revogação do decreto. No dia 22 de janeiro iniciamos a mobilização em frente ao porto da Cargill. Naquela noite chamamos os parentes para se juntar a nós. No começo éramos cerca de 56 pessoas. Com a força dos nossos ancestrais e a divulgação pelas redes sociais, fomos chamando apoio. Mesmo sem estrutura, começamos a conscientizar as pessoas e muitas organizações passaram a abraçar a causa.


E quando vocês receberam a notícia da reintegração de posse determinada pela Justiça Federal, como reagiram?

Gilson: Recebemos essa notícia com tranquilidade. Não foi com medo. Sabíamos que estávamos ocupando um espaço que legalmente está nas mãos deles, mas também sabemos que esse território é nosso. Foram eles que invadiram a nossa região. Estávamos conscientes de que o verdadeiro invasor é esse modelo de exploração que chegou ao Tapajós. Por isso, recebemos a decisão judicial com serenidade.

Nós também lembramos que ajudamos a eleger o atual governo para derrotar o bolsonarismo. Então esperávamos que o governo tivesse sensibilidade para ouvir as nossas reivindicações. Mesmo assim, decidimos manter a mobilização, porque entendíamos que nossa luta era legítima diante da expansão do agronegócio e do projeto do Arco Norte.


Vocês tiveram várias reuniões com representantes do governo. O que eles diziam?

Gilson: Primeiro tivemos uma reunião online com representantes do governo federal. Depois vieram outras pessoas para dialogar conosco, mas eram pessoas que não tinham poder de decisão. Conversamos bastante, explicamos nossa posição, mas nada avançava. As reuniões terminavam sem solução. O governo parecia não querer assumir o erro. Isso foi aumentando a tensão. Com o passar dos dias, fomos radicalizando a mobilização. No último momento demos um ultimato: ou o governo revogava o decreto, ou nós tomaríamos outras decisões para pressionar.


Vocês também pediram a presença do ministro Guilherme Boulos e da ministra Sônia Guajajara. Como foi isso?

Gilson: O ministro Boulos nunca apareceu para conversar diretamente conosco. A ministra Sônia Guajajara também não veio ao local. Enquanto isso, víamos nas redes sociais que eles estavam em outros eventos, viajando, participando de agendas políticas. Parecia que a nossa situação não era prioridade. Nós acreditamos que o governo tentou resolver o problema internamente, sem reconhecer que a pressão indígena foi determinante. Mas é muito mais digno reconhecer que o decreto foi revogado por causa da mobilização dos povos indígenas do que dizer que foi pressão de outros setores.


Vocês enfrentaram muitas dificuldades na mobilização?

Gilson: Foram 33 dias de ocupação. Com crianças, sob sol forte, sem banheiro, sem estrutura. Isso tudo foi gerando muita tensão, muitos sentimentos diferentes dentro do movimento. Mesmo assim conseguimos manter a unidade. Chegamos a discutir várias possibilidades de ação, porque nossa determinação era muito grande.


Fale um pouco sobre o projeto do Arco Norte e o que ele representa para a região.

Gilson: Aqui em Santarém estamos no meio da rota da soja. O projeto do Arco Norte prevê vários portos e corredores de exportação. Falam em alguns pontos principais, mas sabemos que existem muito mais projetos planejados. Há também a Ferrogrão, que ligaria o Mato Grosso até os portos da Amazônia. A ideia deles é transportar grandes volumes de grãos e reduzir custos logísticos.

Mas esse modelo não gera desenvolvimento para nós. Ele concentra riqueza em poucas empresas e transforma a Amazônia apenas em um corredor de exportação. Nós vivemos de outra forma. Aqui conseguimos viver da pesca, da caça, do açaí, da coleta na floresta. Um único açaizal pode alimentar dezenas de famílias. Nós tiramos da natureza apenas o necessário, não acumulamos.
Esse modo de vida incomoda quem quer transformar a Amazônia apenas em um espaço de exploração econômica.

O território de vocês já está demarcado?

Gilson: Não totalmente. Nosso território fica em um distrito de Santarém e envolve várias comunidades. Existe uma área de reserva extrativista que se sobrepõe ao território indígena, e o governo diz que isso já garante proteção. Mas para nós isso não é suficiente. A demarcação oficial ainda não avançou como deveria.O papel do Estado deveria ser garantir políticas públicas, educação diferenciada, saúde indígena e a demarcação das terras. Em vez disso, vemos tentativas de privatizar rios e abrir caminho para grandes projetos.


Para finalizar, qual a importância dessa vitória e quais são os próximos passos?

Gilson: A revogação do decreto mostrou que o povo organizado pode exercer a democracia de verdade. Mostramos às nossas crianças e aos nossos jovens que é possível lutar e defender um bem natural.O direito só existe quando a gente faz valer. Essa vitória serve como exemplo. 

Mas sabemos que outras lutas virão. A ganância não vai parar. Por isso precisamos continuar organizados para defender nossos territórios. Um dos próximos passos é avançar na demarcação das terras indígenas da região. Também vamos continuar fortalecendo nossa organização e nossa consciência política. Essa luta não é só pelo Tapajós. É pela Amazônia e pelo Brasil.