NOTICIAS01/06/2026

ARTIGO: Aposentadoria somente aos 78 anos: o ataque do Banco Mundial contra o povo brasileiro

Artigo do oficial de justiça e dirigente do Sintrajud Marcos Trombeta apresenta reflexão sobre proposta do Banco Mundial que pauta, dentre outros retrocessos, o aumento da idade mínima para aposentadoria no Brasil, que passaria a 72 anos em 2040 e 78 em 2060.
Por: Marcos Trombeta
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Apesar da recente reforma da Previdência (Emenda Constitucional 103/2019), que gerou consequências graves a todo o povo brasileiro, o Banco Mundial não está satisfeito e propõe a continuidade do processo de desmonte do sistema previdenciário por meio de novas reformas, ainda mais radicais. A finalidade do BIRD é aumentar a idade mínima para aposentadoria, que hoje é de 65 anos para homens e 62 para mulheres. Pela proposta de técnicos do Banco Mundial no artigo “O Sistema Previdenciário Brasileiro sob a ótica da equidade” (leia aqui), a nova idade mínima seria de 72 anos até 2040 e 78 até 2060, para homens e mulheres.

O texto também propõe ataques às atuais regras previdenciárias para mulheres, professores e trabalhadores rurais, que deixariam de contar com regras diferenciadas para aposentadoria. Se a vontade do Banco Mundial for formalizada nestes critérios, grande parte dos brasileiros estará condenada a não se aposentar e, consequentemente, mais exposta a enfrentar condições de miserabilidade durante a velhice.

O documento chega a afirmar que seria necessário reduzir a “generosidade” do sistema previdenciário brasileiro, como se as regras previdenciárias vigentes fossem benevolentes. Ainda vai além, e também propõe que a contribuição, ou confisco, que hoje recai sobre as aposentadorias dos servidores públicos seja estendida a todos os aposentados. Este conjunto de propostas com ataques a direitos deve servir de alerta para a nefasta atuação desta e de outras entidades internacionais a serviço do sistema financeiro.

Ao longo dos últimos anos, observa-se uma constante pressão por “ reformas ” destruidoras de direitos, não somente do sistema previdenciário, mas também administrativa e trabalhista, reformas estas que estão destruindo direitos e aprofundando a deterioração geral das condições de trabalho e de vida no Brasil. As justificativas para essa infinita “ necessidade ” de reformas são sempre mentirosas e buscam ocultar as verdadeiras intenções por trás dessa agenda. 

Recorde-se o discurso para justificar a reforma trabalhista, quando o governo da época chegou a afirmar que ela seria responsável pela criação de seis milhões de empregos, o que obviamente não se confirmou. A única consequência da reforma trabalhista foi mais precarização e piora nas condições já difíceis enfrentadas pelos trabalhadores brasileiros.

O mesmo discurso mentiroso foi observado quando aquele mesmo governo e o seguinte apresentaram as suas propostas de reforma da previdência, sob a alegação de economia de recursos para supostamente viabilizar a sustentabilidade das futuras aposentadorias.

Devemos ter em mente que o Banco Mundial, assim como outras entidades internacionais ligadas ao sistema financeiro, não tem por finalidade o desenvolvimento do país ou o bem estar do povo, muito pelo contrário, as suas políticas já se demonstraram desastrosas e nocivas ao Brasil. Essa entidade, juntamente com o FMI ( Fundo Monetário Internacional ), foi responsável pelo chamado “ Consenso de Washington ”, conjunto de medidas implantadas a partir da década de 90, que resultou no enfraquecimento da economia brasileira e no grave processo de desindustrialização que se observa por aqui desde aquela época. Foi exatamente esta a consequência das privatizações e da perda da capacidade de investimento por parte Estado, modelo proposto pelo Banco Mundial, com a finalidade nos atrasar e manter o Brasil como uma mera “ colônia ” no sistema capitalista internacional.

O verdadeiro objetivo das propostas apresentadas pelo sistema financeiro – e apoiada por boa parte da classe política e de forma massiva pelos meios de comunicação  –, a partir de uma análise mais estrutural, é impedir que o Brasil seja um país soberano e ao mesmo tempo que continue sendo uma fonte inesgotável de recursos para alimentar este sistema internacional de exploração, em detrimento dos interesses do povo, como de fato vem sendo. A reforma administrativa, por exemplo, ataca os serviços públicos, abrindo caminho para privatizações e para que um volume ainda maior de recursos acabe sendo drenado para o sistema da dívida pública. Não coincidentemente que entidades como o BID ( Banco Interamericano de Desenvolvimento ) e o próprio Banco Mundial estejam por trás da recente proposta de reforma administrativa ( PEC 38/2025 ), conforme denunciado pelo informativo da Auditoria Cidadã da Dívida intitulado “ Reforma Administrativa ou desmonte? Como o Banco Mundial e o BID interferem para o desmonte dos serviços sociais ”. 

O sistema da dívida pública, denunciado pela Auditoria Cidadã da Dívida, consome quase metade do orçamento público federal e, não por acaso, permanece intocado por todas estas propostas da agenda reformista. Afinal, quanto menos direitos sociais e quanto menos serviços públicos, mais recursos públicos acabam sendo destinados ao sistema financeiro por meio deste mecanismo. O objetivo real é ampliar o acúmulo de capital nas mãos da elite que controla o sistema financeiro à custa dos direitos da população.

É importante destacar que os limites de gastos públicos impostos pela legislação não se aplicam aos juros pagos aos bancos pelo sistema da dívida, mas tão somente aos direitos e serviços públicos prestados à população, como aposentadorias, investimentos em saúde e em educação.

Ainda mais importante é observar a relação que existe entre a nociva atuação do sistema financeiro, o desvio de recursos públicos pelo sistema da dívida, a sabotagem do Estado como propulsor do desenvolvimento, a sabotagem dos direitos sociais, dos serviços públicos e dos direitos da classe trabalhadora, a sabotagem da própria soberania nacional, que acontecem por meio da agenda reformista constante, que só terá como consequências destruição de direitos e deterioração cada vez mais intensa das condições de vida das pessoas.

É necessário questionar e denunciar este modelo atual. Hoje nos deparamos com propostas que parecem absurdas, como a imposição da idade mínima para aposentadoria de 72 anos em 2040 e 78 em 2060, como a PEC 32/2020, como a PEC 38/2025, porém, a persistir este modelo no qual todos são prejudicados em benefício exclusivo do sistema financeiro e da pequena elite que o controla, propostas cada vez mais absurdas e destrutivas continuarão aparecendo, de forma indefinida.

 

* Marcos Trombeta é oficial de justiça avaliador federal lotado na CEUN/JF da Capital e diretor do Sintrajud na gestão 2023-2026.