Sindicatos e categorias devem reafirmar luta por redução da jornada com o advento da IA, aponta especialista
Por: Luciana Araujo

SINTRAJUD - As ferramentas de Inteligência Artificial atuais, ainda que facilitem e acelerem diversos processos de trabalho, ainda produzem muitos erros de informações. Pensando em um setor como o Judiciário, cuja atividade visa assegurar direitos a pessoas e pensando que nenhum caso é exatamente igual ao outro, que impactos sociais você aponta no uso da IA?
GUSTAVO MACHADO - A Inteligência Artificial é uma ferramenta criada e utilizada pelo homem, produto de uma técnica específica. Como qualquer ferramenta e qualquer técnica, seu uso pode ter consequências nefastas se não for feito de maneira adequada. A IA não é capaz de analisar casos específicos, mas apenas de reproduzir padrões a partir de um conhecimento previamente existente. Um uso adequado da IA depende, portanto, de profissionais altamente qualificados, que saibam quando podem utilizá-la e quando não, bem como avaliar e revisar todos os seus resultados, sem uma pressão exacerbada em torno de metas puramente quantitativas.
O problema é que, no capitalismo, em que a redução dos custos é um imperativo — seja com o objetivo de elevar lucros no setor privado ou de reduzir as despesas no setor público —, esse uso inadequado não é apenas uma possibilidade, mas uma tendência. Caso as coisas ocorram dessa maneira, no lugar da melhoria, teremos a precarização dos serviços, sua completa uniformidade, e a substituição da análise humana pela padronização automática. No caso do Judiciário, isso pode significar decisões injustas, perda da sensibilidade diante das diferenças entre as pessoas, da capacidade de tratar de forma desigual os desiguais, impactando justamente os mais vulneráveis, reproduzindo desigualdades já existentes.
As lutas colocadas pela adoção generalizada da IA, portanto, não devem ser uma batalha ludista [movimento trabalhista nos primórdios da 1ª Revolução Industrial que consistia em destruir as máquinas em protesto contra as condições desumanas de trabalho] contra a IA, mas contra o uso específico que se faz dela em cada setor e em cada serviço. Trata-se de lutar para que a tecnologia não sirva à lógica da rentabilidade e da economia de custos, mas preserve o sentido social das atividades humanas — especialmente em áreas que lidam diretamente com direitos, como o Judiciário.
Os servidores públicos brasileiros não podem se esquivar dessa luta, que, também nesse caso, não é uma luta contra a IA, mas contra os interesses que determinam o modo como ela é usada.
SINTRAJUD - Que impactos podem se refletir na prestação de serviços à população?
GUSTAVO MACHADO - Quem define como e com qual finalidade a IA será utilizada não é a própria inteligência artificial, mas pessoas: executivos e gestores de empresas; presidentes, governadores, prefeitos, secretários, ministros e gestores públicos. É importante fazer essa diferenciação para que não esqueçamos que as lutas que surgem a partir da adoção generalizada da IA não são contra uma máquina, mas contra indivíduos de carne e osso, com interesses específicos. E esses interesses, ao contrário do que muitas vezes se diz, não são os mesmos do conjunto da população nem dos trabalhadores diretamente envolvidos. É nesse âmbito — no uso que se faz da tecnologia — que todos os impactos negativos se desdobram: a pressão por produtividade acima dos limites humanos, os erros de análise das ferramentas e o assédio moral decorrente da vigilância constante e da cobrança por metas inalcançáveis.
Mas há um ponto que precisa ser agregado. A IA não é uma ferramenta passiva, como foram a internet ou o computador no passado, em que todas as informações processadas e armazenadas dependiam diretamente da ação dos trabalhadores. A IA é capaz de produzir, associar e organizar informações por conta própria, e isso amplia enormemente o poder de quem a controla. Por isso, o cerne do problema está em saber qual ferramenta de IA será utilizada, quem realizou o seu treinamento, com quais critérios esse treinamento foi feito, e quem decide quando e em quais situações ela será empregada. Os servidores públicos brasileiros não podem se esquivar dessa luta, que, também nesse caso, não é uma luta contra a IA, mas contra os interesses que determinam o modo como ela é usada.
SINTRAJUD - Que caminhos você proporia aos servidores e aos sindicatos para defender direitos dos trabalhadores e da população atendida sem se enfrentar com a realidade inexorável da IA?
GUSTAVO MACHADO - Acredito que o movimento sindical deve atuar em três frentes simultâneas. A primeira, e mais óbvia de todas, é a redução da jornada de trabalho. Esse é o único caminho para que o desenvolvimento técnico não se volte contra os próprios trabalhadores. Se a produtividade aumenta, a única forma de evitar uma redução drástica nos empregos é diminuindo o tempo de trabalho sem reduzir os salários. O recente movimento no Brasil contra a escala 6x1 mostra que é possível recolocar essa pauta na ordem do dia.
Em segundo lugar, é preciso estabelecer regras claras em relação à intensidade do trabalho. A IA traz consigo a informatização e a integração completa dos sistemas, o que permite medir o desempenho por métricas puramente quantitativas, baseadas nos trabalhadores mais produtivos, sem levar em conta as diferenças individuais, de ritmo, de saúde e de condições de trabalho. Esse tipo de medição deve ser combatido com firmeza, pois leva ao adoecimento, à intensificação e, muitas vezes, à extensão disfarçada da jornada — especialmente no caso do trabalho remoto e das plataformas digitais.
Por fim, é fundamental lutar, sobretudo no caso dos serviços públicos, por um sistema de inteligência artificial 100% brasileiro, desenvolvido pelos próprios servidores e operado em sistemas e data centers nacionais. Isso garante não apenas a manutenção de um número importante de profissionais públicos qualificados envolvidos na construção e manutenção desses sistemas, mas também o controle dos critérios de funcionamento e das finalidades de seu uso pelos próprios trabalhadores. Além disso, é uma questão de soberania: os dados e informações processados pela IA dizem respeito diretamente à população brasileira e não podem ficar sob controle de empresas ou governos estrangeiros.
O grande risco é acreditar que toda inovação tecnológica representa automaticamente progresso, quando, na prática, pode significar o contrário: mais controle, menos autonomia e uma redução do espaço humano nas decisões.
SINTRAJUD - Por fim, olhando para uma das maiores chagas do Brasil que é o patrimonialismo gerador de corrupção, como você avalia que o uso indiscriminado e voltado apenas à extração de mais-valor da IA pode impactar os orçamento de direitos sociais, visto que os dados gerados são fonte de orientação de políticas públicas?
GUSTAVO MACHADO - O patrimonialismo no Brasil sempre fez com que o Estado fosse usado para atender interesses privados. A IA, quando aplicada sob a mesma lógica — voltada apenas ao lucro e à redução de custos —, tende a reforçar esse mecanismo. Por exemplo: informações do SUS sobre doenças, exames e atendimentos, que deveriam orientar políticas de saúde, podem ser vendidas ou usadas por empresas privadas de planos de saúde para ajustar preços, selecionar clientes ou direcionar campanhas de marketing. O mesmo pode ocorrer com dados da educação, do transporte e da assistência social — transformando informações sobre a população em mercadoria. Além disso, muitos sistemas de IA utilizados pelo Estado são desenvolvidos e operados por grandes empresas estrangeiras. Isso significa que parte dos dados gerados por serviços públicos brasileiros — inclusive dados sensíveis da população — passa a ser armazenada e processada fora do país. Nessa situação, o governo perde controle sobre informações estratégicas que orientam orçamentos e políticas sociais. A consequência é que decisões públicas podem ser guiadas por critérios comerciais ou políticos definidos fora do interesse nacional. Esse processo cria novas formas de corrupção e dependência tecnológica. Licitações bilionárias para contratar sistemas de IA acabam beneficiando sempre os mesmos grupos, enquanto os servidores públicos ficam sem condições de auditar os algoritmos e de saber como os dados estão sendo usados. O discurso da “eficiência tecnológica” serve, nesse caso, como uma fachada para concentrar poder e recursos. Portanto, a defesa dos direitos sociais na era da IA passa por garantir que os dados públicos permaneçam sob controle público. Voltamos, uma vez mais, ao mesmo lugar. Os sistemas de IA devem ser desenvolvidos por instituições estatais, operados em data centers nacionais e com total transparência nos algoritmos.
SINTRAJUD - Os servidores, especialmente os mais jovens, em geral consideram positivo o advento da IA sem atentar para oa efeitos colaterais. Que alertas você faria, reiterando que a questão não é ser contra a IA, mas orientar novos parâmetros de uso?
GUSTAVO MACHADO - Penso que, para os novos servidores, o grande risco é acreditar que toda inovação tecnológica representa automaticamente progresso, quando, na prática, pode significar o contrário: mais controle, menos autonomia e uma redução do espaço humano nas decisões. No Brasil, após décadas de enfraquecimento da estrutura produtiva e de desvalorização do serviço público, a tendência é que a IA seja usada não para qualificar o trabalho, mas para barateá-lo. Isso significa transformar tarefas que exigem raciocínio, sensibilidade e responsabilidade em rotinas automáticas, sem tempo para reflexão ou julgamento crítico. O resultado é um servidor mais vigiado, mais pressionado e com menor poder de decisão sobre o próprio trabalho. A geração mais jovem tem, portanto, um papel central: compreender a tecnologia, mas também entender quais são os interesses envolvidos por trás de seu uso e a serviço de quem ela é empregada. A IA tende a ser utilizada como instrumento para garantir mais recursos ao endividamento público, ou seja, dinheiro do Estado sendo direcionado para sustentar o capital nacional que não encontra novos espaços de investimento produtivo. Até mesmo a própria ideia de servidor público vem sendo colocada em questão: o Estado passa a custear sistemas que serão operados por trabalhadores terceirizados, temporários e facilmente substituíveis — o oposto da estabilidade e do compromisso com o interesse coletivo que deveriam caracterizar o serviço público.
SINTRAJUD - Tem se debatido muito a soberania digital e desenvolvimento de ferramentas de IA no Brasil, mas, como você explicou, as big techs e plataformas digitais de grande porte são todas estrangeiras. Como a implantação, na atual perspectiva, da IA pode estar em verdade gerando mais dependência e menos soberania?
GUSTAVO MACHADO - A Inteligência Artificial, embora seja uma área que exista há mais de meio século, apenas atingiu o ponto em que pode ser disseminada nos últimos anos. Nesse sentido específico, é uma tecnologia nova. Isso oferece enormes possibilidades a países como o Brasil. Hoje, é possível ao país construir uma tecnologia própria, sem precisar correr atrás de décadas de desenvolvimento. Inclusive, ferramentas já bastante disseminadas, como o DeepSeek, são de código aberto e podem servir como ponto de partida. Os servidores poderiam, inclusive, ser alocados no treinamento dessas ferramentas, segundo critérios definidos socialmente — tanto pelos próprios servidores quanto pelos usuários —, considerando as especificidades do Brasil, seus problemas concretos, sua cultura, sua legislação e sua realidade social. Certamente, o país ainda não tem condições, no curto ou médio prazo, de desenvolver tecnologias próprias para a fabricação de semicondutores de ponta, mas pode adquiri-los e construir seus próprios data centers. Nada disso, porém, é o centro do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que prevê 23 bilhões de reais em investimentos em IA entre 2024 e 2028. Os recursos destinados à inovação e ao desenvolvimento de tecnologia própria nesse plano são, em grande medida, para inglês ver. O grosso do investimento está voltado à adoção e adaptação de ferramentas de inteligência artificial no setor público e privado, baseadas em tecnologias e data centers estrangeiros. Se continuarmos a seguir esse caminho, grande parte das despesas públicas brasileiras será direcional ao capital estrangeiro, substituindo trabalhadores brasileiros por tecnologia estrangeira e disponibilizando aos países dominantes no capitalismo toda sorte de dados sobre o país.
SINTRAJUD - E num cenário de avanço da extrema direita e políticas de recolonização dos países de capitalismo dependente -- como assistimos na atualidade com as sanções do governo Trump -- como a atual forma de implantação da IA nos serviços públicos, entendidos como direitos e formalmente ferramentas de soberania, podem levar os países dependentes a uma situação de mais fragilidade à soberania nacional?
GUSTAVO MACHADO - Esse tema é central. Uma das maiores contradições do capitalismo é o fato de ele precisar crescer infinitamente, mas, para isso, precisa restringir a capacidade de consumo da própria população. Todos os ramos de produção, depois de algumas décadas de expansão, acabam se estagnando. Quando isso ocorre, o capital busca novos setores para absorver seus excedentes — e, neste momento histórico, a bola da vez é a Inteligência Artificial. Mas há um agravante. Um país que domina as tecnologias digitais pode vender e oferecer seus serviços ao mundo inteiro mantendo suas unidades de pesquisa, desenvolvimento e produção dentro de suas próprias fronteiras. Diferentemente do que ocorria com a indústria automobilística ou de eletrodomésticos, não é mais necessário exportar capital para vender os produtos resultantes. Essa mudança altera profundamente a lógica da economia mundial e coloca uma questão de vida ou morte para países dominados como o Brasil. A indústria digital e sua expressão mais recente, a IA, podem ser comercializadas globalmente sem gerar empregos, renda ou arrecadação nos países que apenas consomem essas tecnologias. Implantar amplamente serviços de IA sem produzi-los internamente significa transferir parte crescente da riqueza nacional para os países centrais, aprofundando a dependência tecnológica e econômica, descendo mais um degrau na divisão internacional do trabalho. No caso do Estado brasileiro, significa substituir servidores públicos no Brasil por desenvolvedores de IA nos Estados Unidos e trabalhadores precarizados para seu treinamento na África e na Índia. São questões como essa que estão em jogo.




