Mais de 50 dias de protestos colocam governo boliviano contra a parede
Greve geral, bloqueios de estradas e grandes marchas de trabalhadores, camponeses e povos indígenas desafiam o ajuste neoliberal, enquanto o governo aposta na repressão para conter a crise
Por: JEFERSON LUIZ CHOMA

Há 50 dias, a Bolívia vive uma das maiores ondas de mobilizações sociais dos últimos anos. Grandes marchas de trabalhadores, camponeses, povos indígenas, professores e mineiros, acompanhadas por dezenas de bloqueios de estradas em diferentes regiões do país, colocaram o governo do presidente Rodrigo Paz diante de uma crescente crise política e social.
Eleito em outubro de 2025, Rodrigo Paz assumiu prometendo a abertura da economia e a implementação de um programa de reformas neoliberais. Desde então, vem aplicando um conjunto de medidas que favorecem o agronegócio e os grandes grupos econômicos, transferindo os custos da crise para os trabalhadores e os setores populares.
Entre as primeiras medidas adotadas estiveram a formação de um gabinete ligado ao setor agroindustrial, a eliminação do imposto sobre grandes fortunas e a retirada dos subsídios à farinha e aos combustíveis. As medidas provocaram uma elevação generalizada do custo de vida. A suspensão dos subsídios aos combustíveis foi acompanhada por denúncias de má qualidade da gasolina, que teria causado danos a milhares de veículos, afetando especialmente trabalhadores autônomos do transporte.
Em abril, o governo promulgou a Lei 1720, denunciada por organizações camponesas e indígenas como uma contrarreforma agrária que abre caminho para a reconcentração da propriedade fundiária e para o avanço da especulação de terras sobre as pequenas propriedades rurais.
Na política externa, o governo estreitou relações com os Estados Unidos e organismos financeiros internacionais. Basta lembrar que Paz é peça importante do chamado Escudo das Américas, plano impulsionado por Donald Trump e por governos aliados que pretende aumentar a influência militar dos Estados Unidos na América Latina. E a Bolívia é peça chave nesse tabuleiro por concentrar uma das maiores reservas de lítio do mundo, matéria-prima fundamental para a fabricação de baterias de carros elétricos.
O governo boliviano também anunciou propostas de reforma constitucional apontadas pela oposição como uma ameaça ao controle público sobre recursos naturais estratégicos. Além disso, Rodrigo Paz anunciou uma ampla reestruturação do Judiciário e a abertura de processos contra dirigentes do governo anterior, especialmente o ex-presidente Evo Morales.
Somam-se a essas medidas a persistente escassez de combustíveis, os baixos salários corroídos pela inflação e a crescente rejeição popular ao que diversos setores consideram uma privatização velada dos recursos naturais. Esse cenário levou à convergência de sindicatos independentes, comunidades agrárias e comitês cívicos populares.
Greve geral e bloqueios
No dia 1º de maio, a Central Operária Boliviana (COB) realizou um ampliado em El Alto, aprovando uma pauta que incluía reajuste salarial, revogação da Lei 1720, ressarcimento pelos prejuízos causados aos veículos e defesa das empresas estatais. O encontro declarou greve geral por tempo indeterminado, condicionando seu encerramento ao atendimento das reivindicações ou, em caso contrário, à renúncia de Rodrigo Paz.
A Federação de Camponeses de La Paz aderiu à mobilização, anunciando bloqueios de estradas e também passando a exigir a saída do presidente. Paralelamente, as federações de produtores de coca do Trópico de Cochabamba organizaram a "Marcha pela Vida para Salvar a Bolívia". Após percorrer cerca de 300 quilômetros, a marcha chegou a La Paz em 18 de maio, ampliando a convergência entre os diversos focos de protesto.
O epicentro das mobilizações é o departamento de La Paz, especialmente a cidade de El Alto. Importantes rodovias foram bloqueadas, interrompendo o fluxo logístico e dificultando o acesso à capital. Nesse dia o principal slogan foi o chamado pela renúncia de Rodrigo Paz.O presidente, por sua vez, atribui os protestos a "grupos radicais que se recusam a dialogar" e acusa setores mobilizados de promover a desestabilização do país.
Governo busca acordos e amplia repressão
Na tentativa de conter os protestos, o governo passou a buscar acordos setoriais. Com os sindicatos dos professores urbanos e rurais, ofereceu um bônus anual em vez do reajuste salarial. Com organizações indígenas, comprometeu-se a revogar a Lei 1720. Já com os transportadores, estabeleceu mecanismos de compensação pelos prejuízos causados pela má qualidade dos combustíveis.
Paralelamente às negociações, o governo intensificou a repressão. Foram emitidas ordens de prisão contra o principal dirigente da COB, além de lideranças de El Alto e dirigentes camponeses. As acusações incluem terrorismo e outros crimes, com penas que podem variar entre três e cinco anos de prisão.
Organizações sindicais também denunciam a atuação de grupos civis incentivados pelo governo. Um dos casos mais destacados foi o ataque sofrido por Octavio Urquizo, dirigente da COB, por integrantes de um grupo de choque composto por civis, segundo denúncias feitas por entidades sindicais e organizações populares. Entre esses grupos, lideranças dos movimentos apontam organizações de extrema direita, como a Juventud Cruceña.
Lei dos Estados de Exceção
Em meio ao agravamento da crise, o governo conseguiu aprovar no Congresso uma nova Lei que Regulamenta os Estados de Exceção. A legislação amplia os poderes do Executivo, estabelece presunção de legalidade para as ações das forças repressivas e assegura assistência jurídica estatal aos agentes envolvidos em operações. A lei não significa a instauração imediata de um estado de exceção. No entanto, concede ao governo os instrumentos legais para decretá-lo por meio de um decreto supremo, que posteriormente deverá ser submetido ao Congresso, responsável por aprová-lo ou rejeitá-lo no prazo de 72 horas.
Organizações sindicais, camponesas e indígenas classificam a medida como uma verdadeira "licença para matar". Para os movimentos sociais, a nova legislação busca institucionalizar a repressão e preparar condições para uma intervenção mais dura contra os protestos.
Bloqueios continuam ativos
Embora o governo tente transmitir a imagem de enfraquecimento das mobilizações, os protestos seguem ativos em diferentes regiões. Entre 77 e mais de 80 pontos de bloqueio permanecem distribuídos por seis departamentos do país, até o último dia 18/06.
As organizações de base continuam realizando plenárias, reuniões e os chamados cabildos — assembleias extraordinárias convocadas em momentos de crise — para discutir a continuidade e o aprofundamento das medidas de pressão.
No dia 10 de junho, uma grande marcha tomou as ruas de La Paz, reunindo dezenas de milhares de trabalhadores, camponeses, povos indígenas, moradores de El Alto, mineiros e setores da juventude, demonstrando que a capacidade de mobilização está longe de se esgotar.
Disputa sobre os rumos do movimento
Ao mesmo tempo em que aumentam as pressões por negociações e alguns dirigentes sindicais e setores sociais buscam saídas pactuadas para o conflito, seguem sendo realizadas plenárias, reuniões de base e cabildos que defendem a continuidade dos bloqueios e o aprofundamento das mobilizações.
As iniciativas revelam uma crescente pressão das bases sobre suas direções. Enquanto parte dos dirigentes propõe diálogos, tréguas e mecanismos de pacificação, importantes setores de trabalhadores, camponeses, mineiros e povos indígenas seguem exigindo a ampliação das medidas de luta.
Várias assembleias expõem uma divisão cada vez mais visível dentro do próprio movimento. Enquanto alguns setores defendem acordos com o governo, outros reivindicam que os rumos da mobilização sejam definidos pelas organizações de base, e não por negociações conduzidas pelas cúpulas dirigentes.
Uma assembleia camponesa realizada na província de Ingavi ilustra essa pressão. "O presidente da Assembleia já havia lido 17 pontos de sua resolução, cujas reivindicações variavam desde a libertação dos detidos, o fim da perseguição a líderes, até a consulta prévia para aprovação de leis e decretos, além de exigir a renúncia de todo o gabinete de Rodrigo Paz. Nesse momento, os presentes começaram a atirar pedras no palco porque exigiam a renúncia do presidente e que essa fosse a única conclusão, e o orador a incluiu como o ponto 17 de sua leitura", relata uma reportagem local.
Nesta quarta-feira (17), a COB apresentou ao governo uma pauta que condiciona o fim dos bloqueios ao atendimento de várias reivindicações. Nesse cenário, em diversas regiões, as bases têm criticado dirigentes favoráveis à conciliação, principalmente na direção da COB, e defendido que qualquer negociação esteja subordinada às decisões tomadas pelas bases dos setores mobilizados.
"Neste dia 18, acabou de ser realizada uma assembleia neste ponto de bloqueio, próximo ao teleférico de Río Seco, em El Alto, na qual foi aprovado o encaminhamento de convocar um ampliado nacional com a participação de todos os departamentos e setores que estão em luta. O objetivo é que as bases decidam os rumos do movimento e que as direções sigam as deliberações aprovadas pelos trabalhadores e pelas organizações mobilizadas", informou Aldiério Florêncio, integrante da Secretaria Executiva Nacional da CSP-Conlutas, que está na Bolívia e acompanha de perto o desenrolar da luta do povo boliviano.
Solidariedade internacional
Apesar da magnitude dos acontecimentos, a crise boliviana tem recebido pouca atenção da imprensa brasileira, inclusive de veículos alternativos.
No dia 11 de junho, a Secretaria de Imprensa e Propaganda da Central Operária Boliviana realizou uma reunião internacional de solidariedade com apoio da CSP-Conlutas, do Brasil. O encontro reuniu ativistas de diversos países para discutir formas de fortalecer o apoio internacional aos setores mobilizados.
No último domingo (14), o Comitê Paulista de Solidariedade ao Povo Boliviano em Luta realizou um ato na Avenida Paulista, em São Paulo. Uma nova manifestação está prevista para ocorrer no próximo dia 18, em frente ao Consulado da Bolívia na capital paulista, em apoio aos trabalhadores, camponeses e povos indígenas mobilizados no país vizinho.
"A CSP-Conlutas está ao lado do povo boliviano e manifesta sua solidariedade às mobilizações em curso, na expectativa de uma grande vitória dos trabalhadores, camponeses e povos indígenas. Afinal, a luta travada hoje na Bolívia faz parte da luta comum dos trabalhadores e dos povos oprimidos em todo o mundo", declarou Aldiério Florêncio.




