Em meio a explosão de feminicídios no país, mulheres discutem "Machismo, feminicídio e relações de poder"
O Encontro foi realizado no último dia 21 reuniu servidoras e servidores do Judiciário para discutir as raízes da violência de gênero e os desafios para seu enfrentamento.
Por: Jeferson Choma

Em meio aos bárbaros casos de violência contra as mulheres, com o aumento dos registros de feminicídios e estupros, o Coletivo de Mulheres Mara Helena dos Reis e a diretoria do Sintrajud promoveram a atividade de formação e debate “Machismo, feminicídio e relações de poder”. O debate foi realizado no auditório da entidade e reuniu servidoras, servidores e trabalhadoras do Judiciário para discutir as raízes estruturais da violência de gênero e os desafios para seu enfrentamento.
A mesa do encontro teve como participantes a diretora do Sintrajud, Ana Luiza Figueiredo, a ativista Bebel Abelhinha, da equipe da Soberana TV, e a dirigente do Sintrajufe-PI, Madalena Nunes, com mediação da diretora Rosana Nanartonis. A atividade, que foi transmitida via online, integrou as ações do Mês Internacional de Luta das Mulheres e foi aberta a toda a categoria.
Machismo e a crise do capitalismo
Ana Luiza iniciou a exposição lembrando da importância do 8 de março como uma data de luta, na qual as mulheres vão às ruas em todo o mundo e cuja origem está relacionada à luta do movimento socialista e à Revolução Russa em 1917. A dirigente explicou que a opressão das mulheres tem se agravado com a crise do capitalismo. “Se, em seu início, o capitalismo representou um avanço nas forças produtivas, hoje vivemos sua fase destrutiva, marcada pelo imperialismo, pela concentração de riqueza e pelos monopólios. Desde o início do século XX, vemos guerras, crises e uma escalada de violência. Nesse contexto, não é possível dissociar o aumento do feminicídio e da violência contra as mulheres da crise geral desse sistema. Não há interesse real em nos libertar. A opressão que vivemos está ligada a esse sistema e, para superá-la, é necessário enfrentá-lo”, completou.
Ana ressaltou a importância de as mulheres se organizarem a partir de suas especificidades, mas também de se unirem ao conjunto da classe trabalhadora. “Nessa luta, nossos aliados são os trabalhadores, homens e mulheres, mas isso não significa tolerar o machismo. Pelo contrário: é preciso combatê-lo em todos os espaços”, disse.
Ela também explicou que o cenário político atual é extremamente preocupante, com o crescimento da extrema direita, e destacou a necessidade de analisar e criticar os limites do governo atual, que, apesar do discurso, não enfrenta estruturalmente a violência e a desigualdade.
“Por isso, precisamos construir uma alternativa. Não podemos nos limitar a escolher entre o ruim e o menos ruim. É necessário apresentar um projeto que enfrente as raízes do problema. Na minha avaliação, essa saída é socialista. Precisamos nos organizar, nos proteger, ser solidárias e fortalecer nossas lutas. E também chamar os homens trabalhadores para essa luta”, finalizou.
Combate ao machismo exige políticas públicas
Madalena Nunes começou sua fala lembrando de Maria Helena, que dá nome ao coletivo de mulheres do Sintrajud. Mara Helena dos Reis foi servidora da Justiça Federal em São Paulo e diretora de base do sindicato, vítima de feminicídio em 2018.
Para a palestrante, A palestrante lembrou no cenário atual em que explodem casos de feminicídio país afora: “Hoje, os dados mostram um crescimento alarmante da violência, com milhares de casos de estupro por ano no Brasil. O feminicídio é um crime evitável. Sabemos que ele resulta de um processo e, portanto, pode ser interrompido. Mas, para isso, é necessária ação concreta. O Estado tem responsabilidade direta nisso. Não basta discurso: é preciso política pública, orçamento e efetivação das leis”, explicou.
Madalena destacou a existência leis importantes, como a Lei Maria da Penha, mas que ainda não são plenamente aplicadas por falta de investimento, estrutura e compromisso real.
Ela também destacou a importância de envolver os homens nessa luta. “Eles precisam assumir responsabilidade e atuar na transformação dessa realidade”. E finalizou ressaltando a necessidade da organização das mulheres para combater o machismo: “A violência contra a mulher não afeta apenas indivíduos, ela impacta toda a sociedade. Por isso, precisamos seguir organizadas, fortalecidas e comprometidas com a construção de uma sociedade livre de violência”.
A luta contra o machismo é uma luta de classes
Bebel Abelhinha iniciou sua fala fazendo uma crítica ao direito, apontando que se trata de uma ferramenta criada dentro de uma estrutura burguesa e patriarcal, historicamente excludente em relação às mulheres, à população negra e a outros grupos oprimidos.
“Hoje, o direito vem se adaptando. Ele se adapta porque nós não ficamos caladas. Porque a população negra não fica calada. As lutas pressionam e arrancam conquistas, ainda que parciais. Mesmo assim, estamos longe de alcançar uma igualdade real. Falta segurança, falta suporte, faltam políticas públicas. E tudo isso nos atinge de forma mais intensa, especialmente porque seguimos sendo, em grande parte, responsáveis pelo cuidado com filhos e pela organização da vida doméstica”, explicou.
Ela também criticou grupos machistas que difundem discursos sobre “direitos dos homens”, alegando a existência de um suposto “judiciário feminista” ou de um pretenso “privilégio feminino”.
“Esse discurso se articula com ideologias como o movimento ‘red pill’, que tem alcançado jovens cada vez mais cedo, muitas vezes de forma disfarçada. Esses conteúdos canalizam frustrações reais, como o desemprego e a precarização do trabalho, mas têm como alvo as mulheres. Quando homens são pressionados a serem provedores e não conseguem cumprir esse papel, surge a frustração. E, em vez de identificar a origem estrutural desse problema, essas ideologias apontam as mulheres como culpadas”, explicou.
Para Bebel, o sistema que produz desigualdade também fabrica ideologias para desviar a atenção de suas causas reais. “Por isso, precisamos estar organizadas e vigilantes. E isso inclui a participação dos homens, não como apoio paternalista, mas como parte da luta. A luta contra o machismo é uma luta de classes, assim como a luta contra o racismo”, finalizou.
Debate do público
Após as apresentações, o debate foi aberto ao público, que trouxe contribuições densas e diversas, reforçando e aprofundando os temas apresentados pelas palestrantes. As intervenções evidenciaram que o debate sobre feminicídio e violência de gênero atravessa experiências concretas do ambiente de trabalho e da realidade cotidiana. Muitas falas destacaram o cenário bárbaro de violência contra as mulheres, com números alarmantes de estupro, casos de assédio e assassinatos.
Entre os pontos levantados, destacaram-se críticas à atuação do Estado no enfrentamento à violência contra as mulheres, incluindo denúncias sobre a condução de casos de feminicídio e a atuação de agentes públicos, além da cobrança por responsabilização institucional no Judiciário. Também foi ressaltada a importância de iniciativas organizativas, como frentes de luta contra o feminicídio, apontadas como caminhos para fortalecer a ação coletiva.
Tolerância zero com o machismo
Foi lembrada também uma decisão histórica ocorrida durante o 10º Congresso do Sintrajud, que estabeleceu tolerância zero diante de atitudes misóginas e violações dos direitos das mulheres. Durante o Congresso, sem votos contrários, o plenário deliberou pela exclusão de dois delegados após denúncias de assédio feitas por duas servidoras e duas funcionárias. O episódio reafirmou o compromisso da categoria com o respeito, a autonomia e a participação plena das mulheres nos espaços de decisão.
Revista contra o assédio
Após o debate, ocorreu um happy hour com petiscos e música, como parte das celebrações do Mês Internacional de Luta das Mulheres. Reafirmando esse posicionamento, o Sintrajud lançou no Congresso, a revista “Assédio moral, sexual e discriminação no trabalho: identificar, denunciar e combater”. O material será distribuído nos locais de trabalho do Judiciário no estado e disponibilizado em versão digital, consolidando-se como parte de uma iniciativa permanente do sindicato no combate às opressões e na luta conta o machismo.




